Movimento sistêmico e contraditório no qual uma totalidade se transforma qualitativamente e transita de uma forma de existência a outra pela interdependência de suas múltiplas determinações.
Compreensão-base
Mediação é o próprio movimento sistêmico e contraditório no qual uma totalidade, pela interdependência de suas múltiplas determinações, reorganiza-se qualitativamente e transita de uma forma de existência a outra. Não designa uma coisa, pessoa ou recurso colocado entre polos previamente constituídos. Nenhuma coisa produz a mediação por si mesma: sujeitos, objetos, instrumentos, signos e condições somente entram nesse processo quando são coerentes com a configuração particular do sistema de relações, ocupam nele uma posição funcional e participam efetivamente da transformação. Singularidade, particularidade e universalidade não são três entidades que se modificam umas às outras, mas formas objetivamente distintas e inseparáveis do movimento da mesma totalidade.
Evite reduzir a...
Não deve ser reduzida a ponte, termo médio, ajuda, facilitação, influência externa, presença de um recurso intermediário, simples interação, mera reciprocidade ou sequência causal linear entre elementos fixos. Tampouco se deve atribuir a função mediadora como qualidade inerente a um professor, livro, signo ou instrumento. Nem toda relação ou mudança constitui mediação: é necessário delimitar a totalidade analisada e demonstrar o movimento multideterminado que produz sua transformação qualitativa.
Aplicação nas pesquisas
Na investigação, exige delimitar a totalidade pertinente ao problema, reconstruir sua forma inicial, identificar as determinações interdependentes e as contradições do movimento, estabelecer a posição funcional ocupada pelo elemento examinado e demonstrar a nova organização qualitativa produzida. Em vez de perguntar apenas ‘quem ou o que é o mediador?’, pergunta-se: em qual sistema de relações esse elemento atua, como entra na mediação e de que modo participa da passagem da totalidade a outra forma de existência? Na educação, esse procedimento impede que professor, livro, linguagem ou conhecimento sejam tratados como mediadores em si mesmos.
Interdependência da multideterminação
Na perspectiva materialista histórico-dialética que fundamenta a Teoria Histórico-Cultural, a mediação é interna ao movimento contraditório da totalidade. O desenvolvimento não consiste na incorporação passiva de influências que chegam de fora, mas na reorganização das relações que constituem uma forma de existência e em sua transição qualitativa para outra forma.
A multideterminação não corresponde à soma de fatores independentes. Cada determinação adquire função e eficácia concretas pelas relações que estabelece e pela posição que ocupa no sistema; por isso, nenhuma delas pode ser tomada como causa autossuficiente da mediação. Compreender o processo requer reconstruir a interdependência dessas determinações, as contradições que movimentam a totalidade e a mudança de organização que nelas se realiza.
Singular, particular, universal e totalidade
Singularidade, particularidade e universalidade não são níveis isolados, camadas sucessivas ou coisas autônomas que agem umas sobre as outras. São formas do movimento de uma mesma totalidade concreta. Não há, portanto, três movimentos que depois se relacionam: é a totalidade que se transforma em seu movimento singular–particular–universal.
O singular é a forma concreta e irrepetível em que a totalidade existe. O particular designa a configuração historicamente determinada do sistema de relações na qual o universal assume forma concreta e a singularidade se constitui. O universal expressa a regularidade interna, necessária e tendencial que emerge dessas relações, sustenta a unidade da totalidade e orienta seu movimento.
Essas determinações são objetivamente distintas e precisam ser diferenciadas pela análise, mas não existem separadamente no objeto concreto. Distingui-las não autoriza reificá-las como entidades que primeiro existiriam isoladas e depois passariam a interagir, nem ordená-las como etapas de uma sequência linear.
O universal como regularidade interna
O universal não é a simples repetição de características comuns nem uma abstração imposta externamente aos fenômenos. É o princípio comum e tendencial que se constitui historicamente nas relações entre as partes de uma totalidade, confere unidade à sua diversidade e se realiza em configurações particulares e formas singulares concretas.
O universal é produto histórico dessas relações e, uma vez relativamente estabilizado, passa a integrar como determinação a produção de novas relações particulares, transformando-se também ao realizar-se nelas. É, assim, resultado e pressuposto continuamente reproduzido no movimento da totalidade.
A teoria pode formular essa regularidade objetiva como lei de movimento ou lei-tendência, mas não a cria. A tendência orienta o movimento sem predeterminar mecanicamente cada realização singular, pois opera em unidade com contradições, condições, contingências e contratendências presentes em cada totalidade concreta.
Mediação, meio e ‘mediador’
Mediação é o processo; meio é um elemento material ou simbólico que pode ser empregado na atividade e, sob condições determinadas, entrar nesse processo. A presença do meio não comprova a mediação. Um livro pode estar na atividade sem participar de sua transformação qualitativa; suas propriedades e seu conteúdo, considerados isoladamente, não lhe conferem eficácia mediadora.
O livro entra na mediação somente quando seu uso é coerente com a configuração particular do sistema de relações, nele ocupa uma posição funcional e participa efetivamente da reorganização da atividade. O mesmo princípio vale para professores, linguagem, signos, obras de arte e instrumentos culturais.
A pergunta ‘X é o mediador?’ substantiva um processo relacional e, por isso, é insuficiente. Com maior rigor, pergunta-se em que totalidade, sob quais relações e contradições e na produção de qual transformação qualitativa X entra na mediação. Sua participação não decorre do que X é em si mesmo, mas da função concreta que assume nesse movimento.
Produção e consumo em Marx
A análise de Marx sobre produção e consumo permite distinguir identidade imediata, mediação e totalidade. A produção cria o objeto e o modo do consumo; o consumo realiza o produto como produto, reproduz a necessidade e participa da determinação de uma nova produção. São momentos diferentes que se pressupõem e se determinam no interior de uma unidade contraditória.
A mediação não aparece como terceiro elemento acrescentado de fora nem como simples igualdade entre produção e consumo. A determinação recíproca caracteriza a relação mediada, mas, sozinha, não esgota o conceito de mediação. Esta diz respeito ao movimento real pelo qual momentos distintos participam da passagem e da transformação das formas de existência da totalidade.
Na unidade formada por produção, distribuição, troca e consumo, Marx preserva as diferenças, reconhece determinações recíprocas e assinala a produção como momento preponderante. Desse modo, identidade imediata, reciprocidade, mediação e totalidade não devem ser tomadas como sinônimos.
Implicações para a atividade pedagógica
A frase ‘o professor é o mediador entre a criança e o conhecimento’ é insuficiente quando transforma a mediação em atributo permanente do docente e sugere que criança, professor e conhecimento são três coisas prontas ligadas exteriormente. A presença do professor ou de um recurso didático não garante, por si só, uma transformação qualitativa.
O professor entra na mediação quando sua atividade ocupa uma posição funcional na organização concreta das relações e participa da transformação da totalidade delimitada pela análise. Do mesmo modo, a criança, o conhecimento, a linguagem, os instrumentos e as condições escolares devem ser compreendidos em sua interdependência, sem converter nenhum deles em causa isolada.
Reconhecer signos e instrumentos como meios culturais da atividade não significa atribuir-lhes poder causal autônomo. Sua função constitui-se no uso social, na atividade significada e nas relações concretas em que são mobilizados. Essa distinção preserva o papel decisivo dos meios culturais em Vigotski sem convertê-los em substâncias portadoras de mediação.
Essa concepção exige demonstrar o movimento: qual era a organização inicial da atividade, quais contradições e determinações a constituíam, que função cada elemento assumiu e que nova forma de existência foi produzida. Assim, mediação torna-se uma categoria analítica da transformação, e não apenas uma designação elogiosa para práticas de ensino.
Estatuto teórico desta formulação
A definição apresentada neste verbete é uma síntese teórico-conceitual em desenvolvimento, elaborada pelo Grupo de Pesquisa Educação e Desenvolvimento a partir das proposições de Armando Marino Filho e posta em diálogo com Marx e com a Psicologia Histórico-Cultural. Não deve ser atribuída como definição literal formulada por Marx, Vigotski ou Leontiev.
Sua coerência com a Teoria Histórico-Cultural reside na compreensão da atividade e do desenvolvimento como processos sociais, históricos e sistêmicos, nos quais novas formações reorganizam qualitativamente as relações existentes. Ao mesmo tempo, a ênfase na transformação da totalidade e na impossibilidade de uma coisa mediar por si mesma constitui uma elaboração interpretativa que precisa ser explicitada, fundamentada e confrontada com as obras primárias em cada investigação.